MULHERES EM L’ŒUVRE AU NOIR

 

Pedro Armando de Almeida Magalhães – Aliança Francesa

 

 

Por que falar sobre as mulheres de L’Œuvre au Noir, uma vez que elas desempenham papéis secundários? Por que falar sobre as mulheres se a autora Marguerite Yourcenar preferia os personagens masculinos? Veremos que há uma razão para tal escolha. Essa escolha se justifica pelo simples fato de o nosso protagonista Zénon mudar o seu percurso depois do encontro com duas delas. Pode-se até mesmo afirmar que determinadas mulheres pontuam as fases da vida de nosso herói. E que o contato entre essas mulheres e Zénon alegorizam tanto o embate entre história e ficção, presente ao longo do romance, como fazem referência a dados autobiográficos da escritora belgo-francesa. Resta saber de que forma. É isso que tentaremos esclarecer.

Na minha dissertação de mestrado intitulada “Elogio da Diferença” procuro analisar longamente a relação entre literatura e história no romance L’Œuvre au noir. Demonstro a presença de três correntes historiográficas distintas: a presença da história positivista do século XIX, a presença da “École des Annales” e a presença da História Nova.

Se a história fatual positivista exalta os personagens de elite, os grandes homens, bem como os grandes eventos políticos como guerras, tratados e revoluções, a história que nasceu com a “École des Annales” preocupa-se com mentalidades, a sociedade em sua pluralidade, indivíduos comuns, massas populares, o cotidiano. A chamada História Nova reconhece a subjetividade e o caráter fragmentário de todo relato histórico.

Se em L’Œuvre au Noir há a menção a vários acontecimentos e personagens históricos que fazem parte do universo renascentista do século XVI, não se deve ignorar que os personagens fictícios também muito contribuem para a composição da verossimilhança. Eles podem ser vistos como representantes sociais do período renascentista, podem reunir características de seres que realmente existiram ou representar as coletividades anônimas da época.

Comecemos então pela análise dos personagens fictícios femininos presentes no romance yourcenariano. Esses personagens se dividem em duas categorias: os pertencentes às classes favorecidas e os pobres.

Os primeiros são destituídos de poder. Não atuam de forma produtiva fora do lar, limitam-se ao papel de esposa procriadora ou filha. Segundo a historiadora Margaret L. King, a mulher do Renascimento não tem rosto, não tem identidade própria. Suas funções decorrem do papel sexual que desempenha. Ora é encarada como representante de Maria (maternidade, pureza) ou de Eva (pecaminosa, dissoluta), ora é vista como Amazona (atuante, mas com uma sexualidade ambígua ou anormal). Respeitando estritamente a versão estruturalista, na época, o casamento era combinado, sendo que a mulher era um objeto, um instrumento que servia para a transmissão de propriedade. É o que se verifica, por exemplo, no caso de Martha, meia-irmã de Zénon, que se casa com Philibert sem muita convicção, em respeito aos costumes e interesses materiais. Martha se submete às vontades do marido e, covarde, renuncia à fé calvinista. Sua atuação limitada não difere muito do percurso da mãe, já que ambas não demonstram qualquer autonomia, apesar de Hilzonde ter abraçado o movimento da reforma anabatista.

De qualquer forma, a mãe de Martha e Zénon não se rebela contra o domínio masculino: sucumbe aos avanços de Alberico de’ Numi, pai de Zénon, atende aos desejos do marido Simon Adriansen, não resiste à aproximação de Jan van Leiden. Passiva como Hilzonde, mas nem tanto, a tia de Martha, Salomé Fugger, é apresentada como dileta dona de casa, que tiraniza o esposo. Sua filha Bénédicte parece muito mais dócil. É guiada pela afeição e tende a deixar-se influenciar pelas opiniões da prima.

Nessa esfera feminina circunscrita ao ambiente doméstico, a tia de Zénon, Jacqueline, parece representar a esposa mais lasciva da obra. Mãe que defende os interesses da prole e sua posição dentro da família, ela também se insinua sensualmente para o jovem sobrinho.

Mas os personagens femininos que melhor encarnam a oposição Eva e Maria são Idelette de Loos e Wiwine Cauwersyn. Idelette de Loos é a jovem que participa de jogos sexuais com o enfermeiro de Zénon e outros integrantes do grupo dos Anjos. Essas experiências sexuais levam-na à gravidez e, em seguida, à condição de infanticida. Cumprindo o destino reservado às mulheres que matam os filhos, é condenada à morte. Representando a Eva transgressora e promíscua apesar de um tanto ingênua, Idelette pode ser vista como diametralmente oposta a Wiwine Cauwersyn, a jovem que evocaria Maria, por ser religiosa, simples e respeitar o ideal de pureza exigido de toda mulher que permanece solteira.

Com relação aos personagens femininos pobres, são três os que se destacam mais. Todas são serviçais. Na narrativa, a primeira a chamar atenção é Johanna, empregada de Hilzonde e seu marido Simon Adriansen. Fanática religiosa, vivencia o anabatismo na cidade de Münster, e consegue escapar da repressão. Exerce uma influência na meia-irmã de Zénon, a ponto de Martha vir a defender a fé calvinista. Morre esquecida de todos durante a peste que atingiu a cidade de Colônia, na Alemanha. Em meio aos ricos protestantes da época, Johanna representa a crédula de origem humilde.

Já Catherine não parece ser tão subserviente quanto Johanna. Empregada de Jean Myers, tem formação moral deficiente. Levada pela libido, quase que animalesca, inicia relação carnal com Zénon. Guiada pela atração física, envenena o patrão para beneficiar o amante. Rejeitada pelo herói, durante o julgamento deste procura prejudicá-lo. Entretanto, sua vingança não surte efeito e é mandada a um asilo de loucos.

Diferente da fanática Johanna ou da perversa Catherine, Greete é a mais positiva de todas as serviçais, desempenhando um papel um tanto maternal na vida madura de Zénon. Greete corresponderia melhor ao ideal de mãe do que a própria Hilzonde, a mãe verdadeira. Greete reconhece facilmente o alquimista depois do longo período de viagens pelo mundo. Afetuosa, Greete não tem a menor dificuldade em manter segredo acerca da verdadeira identidade do herói. Ao contrário de Hilzonde, que displicente, praticamente abandonou o filho, Greete é leal e não abandona Zénon durante os períodos difíceis de perseguição e intransigência religiosa, procurando apoiá-lo na medida do possível.

Também representando figuras maternas, os dois grandes personagens históricos femininos que figuram no romance são duas regentes: a regente dos Países Baixos, Margarida da Áustria, e a regente da França, Catarina de Médici. Tanto uma como a outra são personagens dotados de voz, pertencentes à elite nobiliária da época. São atuantes em épocas distintas do século XVI. São duas mulheres que conseguiram alcançar o topo da hierarquia social da época, podendo inclusive agir politicamente como líderes. Elas se enquadrariam sem dificuldades na terceira categoria de mulher formulada pela historiadora Margaret L. King: seriam mulheres guerreiras, Amazonas. Margarida da Áustria atuou servindo o Imperador Carlos V, seu sobrinho, chegando a intervir no conflito entre o Império e a França com o intuito de estabelecer a paz. Já Catarina de Médici exerceu grande poder político na França. Astuciosa e ardilosa, fazia intrigas enquanto seus filhos procuravam governar o país. O fato de Catarina ora pender para o lado dos nobres católicos, ora pender para a facção dos huguenotes, demonstra uma grande argúcia política. Sua maneira de lidar com os assuntos da França certamente ajudou a reforçar as bases do Estado Monárquico e preparar a chegada de um rei absolutista.

A proximidade entre Margarida e nosso herói se situa imediatamente antes do início da “vida errante”. Ela ocorre durante as férias do jovem Zénon, na propriedade do tio, o banqueiro Henri-Juste. Margarida da Áustria tinha acabado de assinar um acordo de paz chamado Paz das Damas (agosto de 1529) em Cambrai e estava a caminho de sua residência em Malines. Ela concede em fazer uma escala na casa do negociante Henri-Juste, pois almeja contrair um empréstimo em benefício do sobrinho, para saldar dívidas ou financiar uma nova campanha de guerra. Homenageada com uma grande festa, nota a presença de Zénon, sobre quem obtém informações. Tenta incluí-lo em sua comitiva, mas sem sucesso.

A proximidade entre Catarina e Zénon se situa imediatamente antes do início da “vida imóvel”. Ela ocorre em 1562, três anos após a morte do rei da França, Henrique II, quando Catarina representava seu filho doentio, o rei Carlos IX, que era ainda menor. Catarina de Médici pede a Zénon que trate do jovem rei, mas se nega, em contrapartida, a protegê-lo face à Sorbonne. Zénon, então, decide retornar a Bruges.

Como já foi dito, o contato com Margarida da Áustria ocorre pouco antes do início das viagens de Zénon. Regente dos Países Baixos, a tia de Carlos V simboliza, para nosso herói, a terra natal, as raízes e, em última instância, a identidade. Quanto a Catarina de Médici, ela faz parte do contexto estrangeiro, visto que aparece como regente da França. Ela se encontra no final das viagens que possibilitaram a Zénon entrar em contato com a alteridade, com o outro.

Na primeira parte de L’Œuvre au Noir Zénon busca armazenar o conhecimento que se obtém no exterior. A sua fonte é o outro; o personagem tem sua atenção voltada para fora. Nota-se uma grande ausência do herói, através de seu desaparecimento em certos capítulos, bem como através de grandes lapsos temporais. Ao contrário, nas segunda e terceira partes, Zénon dedica-se a perscrutar o seu próprio interior. Dedica-se à meditação (o capítulo “L’abîme” é um bom exemplo), à reflexão, ao exame de consciência (na prisão). O movimento não se dá tanto em direção ao que é externo, mas ao que é interno, ou seja, ao seu próprio eu.

Em “La vie errante” Zénon está preocupado em adquirir conhecimento para si. Suas inúmeras viagens reforçam sua diferença. Em “La vie immobile” está preocupado em liberar posses. Leva vida casta, frugal, na qual se ocupa com o amparo de pobres e doentes. Sua imobilidade facilita a comunhão duradoura.

No romance, a regente dos Países Baixos está associada à descoberta do mundo por Zénon, à mobilidade física. Apesar de ser a autoridade da pátria do protagonista, ela parece gerar um impulso em direção ao outro. Ao contrário, do contato com a regente da França, associada ao estrangeiro e ao outro, Zénon é impelido para as raízes, a terra natal, a vida em Bruges. Partindo-se do pressuposto que as duas mulheres, em suas posições elevadas, evocam Hilzonde (figura materna), pode-se interpretar a atitude do protagonista como uma resposta ao sentimento de rejeição. Assim, a situação de rejeição se repete. No capítulo intitulado “La fête à Dranoutre” o herói não consegue se dirigir à regente Margarida. Talvez isto baste para que tome a resolução de se tornar andarilho. No capítulo “Les derniers voyages de Zénon” ele consegue dialogar com Catarina de Médici. Entretanto, o pedido que faz é negado. Dessa maneira, ao distanciamento da conterrânea responde com a ida ao estrangeiro; e à recusa de ajuda por parte da estrangeira, reage com a volta à cidade natal.

Pode-se dizer que esses dois encontros alegorizam o diálogo entre história e ficção. E o protagonista Zénon representaria a parte ficcional face a duas representantes da história. Ao entrar em contato com elas, nosso herói dá novo rumo a sua vida, viaja, passa a viver em outro lugar. Ele ganha impulso e reafirma sua liberdade. Zénon é perfeitamente capaz de privar-se da ajuda que elas possam lhe oferecer. Na realidade, ele não precisa delas para sobreviver. Como o protagonista em relação às mulheres de poder, a ficção desprende-se dos dados históricos, ganhando autonomia e sobressaindo-se por fim.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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LADURIE, Emmanuel Le Roy. O Estado monárquico, França, 1460-1610. Trad. Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LE GOFF, Jacques (dir). A história nova. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

YOURCENAR, Marguerite. Œuvres romanesques. Paris: Gallimard, 1982 (Bibliothèque de la Pléiade).